Nem todo mundo é ágil
Hoje a moda é dizer que sua empresa é ágil. Todo mundo agora tem quadro branco nas paredes, um monte de post-it coloridos espalhados por todos os lados, etc. Todo mundo faz Scrum, Kanban, entre outras coisas mais. A questão é quantas empresas de fato são ágeis. Quantas de fato estão trabalhando no sentido de mais qualidade (no produto e na vida dos funcionários)?
A um certo tempo atrás o “mercado”acreditava que deveria padronizar, engessar e burocratizar os seus processos como forma de agradar mais seus clientes. Assim nasceu uma miriade de teorias, livros, bíblias, padrões, siglas e etc. Qualquer empresa que quisesse competir teria que de alguma forma se adequar a algum deles. Imagine então as consultorias que vivem de vender serviço? Me lembro bem das pilhas de papéis que eram feitos sem nem se questionar se valia a pena ou não. Lembro-me bem das inúmeras reuniões para fecharmos escopo antes de ter escrito ao menos uma linha de código, nem um protótipo para validarmos se havia razão em manter o investimento. E nada disso acabou com o maior problema que temos no mercado de TI: clientes infelizes!
PAUSA : Isso mesmo que você leu. O maior problema do mercado de TI é que nossos clientes estão infelizes. Eles pagam caro por algo que não é bem o que eles queriam e que chega num prazo muito acima para ter algum valor. Por isso, não é dificil de entender por que temos tantas empresas que simplesmente optam por não comprar ou desenvolver uma solução mesmo sabendo que ela poderá ajudar.
Trabalhei 3 anos em indústria num departamento de engenharia. Era responsável pela parte de TI mais próxima da máquina (chamado de supervisórios, scada, etc). Com isso tive a oportunidade de lidar com grandes projetos que envolviam números realmente impressionantes. Os projetos, em todos, tinham ciclos de vida de até 4 anos… Isso mesmo os projetos duravam em média 2 a 3 anos desde a sua concepção até a sua entrega, devido a lidarmos com fabricação de máquinas, construção de prédios, e outros serviços parecidos. Nesse tipo de ambiente é certo concluir que a pressão é grande e a margem de erro é pequena, por isso, muitos diriam que isso seria um “prato cheio” para processos rígidos, escopos fechados, etc.
Acredito que para a surpresa de todos, o que eu vi foi exatamente o contrário: As coisas mudavam muito e isso era muito bem absorvido, pois todos sabíamos que isso poderia acontecer . Não tínhamos quadros brancos, não tínhamos post-its (eu até tinha ) tudo era controlado por um cronograma. Entretanto, sentia que de certa forma éramos ágeis. Quando chegávamos mais perto da entrega (chamávamos de partida da fábrica), contávamos com uma reunião diária com todos os técnicos/engenheiros envolvidos onde discutíamos o que tinhamos feito, os problemas, as soluções, etc. O que realmente estragava toda a brincadeira era o fato dos administradores/diretores nos entupir de formulários a preencher e assim toda a agilidade de equipe ia “por água abaixo”.
Cito esse exemplo para dizer que agilidade nada tem a ver com a ferramenta ou processo adotado. Tem muito mais relação com RESIlÊNCIA, ou seja, a sua capacidade de aceitar um “porrada” sem se deformar; sua capacidade de aceitar que as coisas mudam e ser aberto a elas; sua capacidade de não esconder os problemas, entender que eles existem e fazem parte de tudo, e que o grande lance não é procurar culpados e sim formas de resolver. É entender que tudo é negociável (menos a qualidade por favor).
RÓTULOS SÃO BONS PARA EMBALAGEM NÃO PARA FAZER SOFTWARE
Tenho começado a vislumbrar que tudo não passa de rótulo. Empresa que antes eram CMM ou RUP doentes hoje dizem que usam SCRUM e são ágeis. O que mudou foi o RÓTULO, nada mais. Ainda tem um monte de gente fazendo coisas sem sentido (zero de valor para o cliente), equipes fazendo horas extras para caramba, chefes mega autoritários e por aí segue. Tem uma palestra do Jeff Patton entitulada “Eu não quero seus processo estúpido” que fala algo nessa linha.
Dane-se o nome. O que importa é gente feliz: cliente feliz, funcionário feliz, chefe feliz, enfim todos felizes. Não é o quadro branco ou a pilha de documentos que irá garantir isso É muito mais atitude! O que importa que vamos entregar mais valor para o nosso cliente e com isso fazê -lo ganhar mais dinheiro. É termos um ambiente que propicie que o cara que está fazendo esteja feliz e motivado pois sei que com isso ele irá fazer o seu 100% para ter algo bom e de qualidade na ponta. E se tudo funciona todos ficam felizes.
Seus processo, solução ou de qualquer jeito que queira chamar, dever como um lubrificante: deve facilitar o funcionamento para obter o máximo rendimento.
NÃO IMPONHA PROVE QUE SERÁ MELHOR
Um dos maiores erros é impor. Nada imposto dura muito ou é feito com alegria. Prove que se fizer daquele jeito será melhor e esteja preparado para estar errado. Não será em todos os lugares que fazer par para programar será a melhor coisa. Isso depende das pessoas quererem. Eu particularmente gosto. Não será em todos os lugares que não ter cronograma será a melhor escolha.
Sugiro, experimente, erre, mude. Siga evoluindo. Um colega de trabalho, Bernardo Heynemann, num tech talk, falou que uma coisa legal da cultura japonesa que ajuda muito o jeito Toyota de fazer as coisa é que eles sempre buscam a excelencia e evolução continua. Isso para mim é ser ágil. Aceitar o movimento e fazer uso dele.